Archive for março, 2012

16/03/2012

A imagem invisível

A capa da revista Time com data de 5 de março provocou um bom debate. Em 20 fotografias enfileiradas sobre fundo branco, ela retratou rostos de americanos de origem latina. São homens e mulheres, de várias idades, mas todos eles, sem exceção, morenos, de olhos sutilmente puxados. Ao centro, uma chamada em espanhol: “Yo Decido”. Ao lado, um pequeno texto explicativo: “Por que os latinos decidirão a escolha do próximo presidente.”

Detalhe explosivo: numa das fotos – logo na fileira do alto, o terceiro da esquerda para a direita – está alguém que não nasceu nem no México nem na Guatemala. Embora nenhuma das personagens da capa esteja identificada, logo se soube que aquela pessoa, fisicamente parecida com as outras 19 que lhe fazem companhia na capa, era Michael Schennum, um tipo simpático de ascendência chinesa. Ele não é, nem nunca foi, o que a revista Time chama de latino, mas está lá para provar que os latinos existem. Foi o que bastou para que se armasse uma grita na internet. Duramente questionada pela multidão, a revista não teve outra saída: em questão de poucos dias, precisou pedir desculpas em seu site pelo que chamou de “mal-entendido”.O episódio, que já rendeu polêmicas pertinentes, ainda vai ser muito comentado na imprensa e nas escolas de Jornalismo. Uns dirão que a Time cometeu um deslize ético. Outros, mais técnicos, afirmarão que houve pressa e descuido na seleção das fotos. Haverá ainda os que falarão da força crescente das redes sociais para fiscalizar e denunciar os desvios da mídia. Todos estarão certos, como de costume, mas o que essa história tem de mais interessante não tem que ver apenas com a ética ou com a técnica da atividade jornalística, assim como não se restringe ao poder dos internautas de desmentir a famigerada “grande imprensa”. O melhor do episódio está num campo mais vasto, mais crítico, mais fascinante e mais incerto: ele nos leva  refletir sobre o limite da fotografia como registro da realidade no jornalismo. América Latina é território?

Comecemos pelo óbvio: há fenômenos que a fotografia é incapaz de registrar. Parece uma aleivosia dizer isso nestes tempos de culto das imagens, mas há notícias, há fatos, há personagens que os olhos não podem ver, mas o pensamento pode saber que existem de verdade. O jornalismo pode dar conta deles, sem dúvida, mas, aí, as câmeras fotográficas não apenas não ajudam, como, às vezes, atrapalham. Foi o que aconteceu agora com a Time, que tentou fabricar um fenótipo quase individualizado para uma demografia difusa.

O equívoco da Time não veio de um preconceito racial ou de más intenções inconfessas, mas da tentativa de fotografar o que não tem face própria, nem pode ter. A revista quis dar rosto a algo que não tem um rosto uniforme e, nesse artifício gráfico, distorceu a face da América. Pior: contribuiu para estigmatizar, pela cor da pele, pelo formato dos olhos, pela textura dos cabelos, pessoas que são tão americanas quanto Kim Basinger, Muhammad Ali ou Louis Armstrong. A Time apontou sua objetiva para uma demografia e captou apenas um erro de informação. Atenção para isso: mesmo que o descendente de chineses Michael Schennum não estivesse ali, a capa da Time com data de 5 de março seria bastante problemática. Ou mesmo errada.

Para que se entenda melhor a invisibilidade de que estamos falando aqui, pensemos no conceito de América Latina. Alguém consegue demarcar no mapa, com exatidão, onde começa e onde termina esse território? Aliás, a América Latina é território? Ou é um conceito cultural? Será que a América Latina acaba na cerca mortal que separa o México dos Estados Unidos? Ou ela continua para dentro do estado do Texas, chegando mesmo à periferia de Nova York? Será que a América Latina não está, hoje, dentro da própria alma do eleitorado americano? A revista Time, a seu modo, diz que sim, mostrando que 9% dos eleitores americanos são latinos. São eles, segundo a revista, que decidirão a disputa. Por isso ela quis mostrar o rosto deles, e errou.

Foto do perfil Linkedin de Schennum

Crença fanática nas imagens

Os latinos não têm um rosto homogêneo. Assim como o conceito de América Latina não tem fronteiras nítidas na geografia, o aspecto físico dos latinos não é único, distinto de todos os demais, pois nascem bebês de olhos azuis no Peru e em El Salvador. Há latinos loiros e negros despejando suas escolhas nas urnas americanas, mas eles não são um tipo físico. Os latinos da Time são reais, eles existem, mas, para quem quiser enxergá-los um a um, no meio das massas humanas que trafegam nas cidades americanas, eles são invisíveis. Podemos deles ter muitas imagens, mas não podemos ter um retrato. A não ser que queiramos estigmatizá-los, segregá-los, isolá-los, separá-los do povo – e se for esse o caso, teremos de inventar um tipo físico e, com base nele, traçar a linha de corte, o que poderia dar em tragédia.

De tudo isso temos uma conclusão provisória: vídeos, filmes e fotografias não são o critério da verdade, não são capazes de separar o que existe do que não existe. Às vezes as fotografias só mostram uma ilusão, como ocorreu com esse estereótipo de “latinos” que tomou de assalto a capa da Time. Quando é assim, a fotografia é antifactual, antijornalística por definição, apenas uma miragem.

No documentário Janela da Alma, de 2001, dirigido por João Jardim e Walter Carvalho, o escritor José Saramago dá um depoimento difícil de esquecer: “Foram necessários mais de 2 mil anos para que a humanidade inteira entrasse dentro da caverna de Platão.” Para ele, a nossa civilização é prisioneira da crença fanática que tem nas imagens. Só damos o estatuto de verdade ao que podemos ver. Um dos muitos problemas que isso nos causou aparece agora na capa da Time. Às vezes criamos falsos deuses, ou falsas fotos jornalísticas, para dar traços de fisionomia ao que são apenas fantasmas da ideologia.

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Por Eugênio Bucci em 13/03/2012 na edição 685

Réplica da matéria publicada no Observatório da Imprensa: http://observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed685_a_imagem_invisivel

10/03/2012

Guarda da NF-e e do CT-e tira o sono de muitas empresas

Exigida já há alguns anos, a emissão da Nota Fiscal Eletrônica (NF-e) e do Conhecimento de Transporte Eletrônico (CT-e) trouxe mudanças no setor fiscal e exigiu grande mobilização dos departamentos de TI das empresas brasileiras. Atualmente, os sistemas desenvolvidos para atender estas exigências estão mais estáveis e confiáveis. Contudo, a NF-e e a CT-e ainda não deixaram de ser uma preocupação para as empresas.

O grande desafio agora é o que fazer com os documentos recebidos. Legalmente, quem recebe o arquivo XML tem a obrigação de guardá-lo e certificar-se de que ele é um arquivo válido. Imagine que o processo de recebimento de NF-e ou CT-e antes era pegar a nota fiscal já com o caminhão na porta da empresa, fazer a conferência física, seguir com a entrada no sistema e arquivamento do documento fiscal.

Com a entrada dos documentos eletrônicos temos o processo iniciando não mais com a chegada do caminhão, mas antes mesmo deste sair do fornecedor. No momento da emissão da nota com o envio do XML, o mesmo sendo recebido, inicia-se o processo de recebimento. Na chegada da mercadoria é obrigação garantir que o XML já esteja na empresa e ainda validar o mesmo na respectiva Secretaria da Fazenda (SEFAZ).

Essas mudanças não trouxeram só complicações, mas sim muitas possibilidades de melhorias no processo – desde a inclusão da data de emissão da NF-e no fornecedor em relatórios de planejamento da produção até ao ponto de negociar com os fornecedores a saída do caminhão somente após a validação do XML contra o pedido de compra, garantindo assim um ganho de tempo considerável no recebimento da mercadoria.

As empresas que já possuem a recepção de NF-e e CT-e automatizadas afirmam que sem o recebimento automático teriam um desgaste enorme para consultar a validade e arquivar os XMLs. Com essa solução as empresas ganham tempo de entrada da mercadoria e ainda em segurança da informação.

A tecnologia corre atrás ou na frente para apoiar o negócio. A maioria dos sistemas de mensageria é capaz de receber e de validar estes arquivos, mas muitos poucos conseguem comparar o XML com o que está escriturado no ERP, deixando o recebedor “às cegas”, sem a certeza de ter um XML válido para toda entrada realizada na empresa.

A preocupação com o passivo gerado por esse processo tem surgido com maior força na pauta das discussões de melhorias para o ano de 2012. As empresas já não sabem por quanto tempo conseguem conviver com essa desconformidade legal ou com o atraso no processo de recebimento. Mais uma vez, é preciso unir forças entre a tecnologia e o negócio para evitar perdas e gerar ganhos.

As exigências do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) vieram para melhorar a relação entre as empresas e o fisco, fazendo com que este processo seja mais transparente e a fiscalização possa ser mais bem realizada. Mas as organizações podem e devem aproveitar estas obrigações para se modernizar e otimizar as atividades.

(*) Fernando Lino é Diretor de Negócios SAP ECC da Veratis.

Réplica do CIO UOL

http://cio.uol.com.br/opiniao/2012/02/28/guarda-da-nf-e-e-do-ct-e-tiram-o-sono-de-muitas-empresas/

10/03/2012

Mestrado em Arquivologia na UNIRIO

A boa notícia para a arquivística brasileira é que a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) obteve aprovação da CAPES para criar o Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos. O curso será o primeiro mestrado em Arquivologia do Brasil. O edital para a primeira turma, com oferta de 20 vagas, deverá ser lançado até junho de 2012.

Ponto para nossa área e para a UNIRIO, que há anos vem lutando por este mestrado!